Em janeiro de 2018, falei aqui no Games&Cigarettes sobre Cosmology of Kyoto, um curioso jogo para computadores que mistura história, religião e elementos de terror para transportar o jogador até o Japão medieval. Diferente da maioria dos jogos da época, seu objetivo não era simplesmente divertir, mas também apresentar aspectos da cultura e das crenças japonesas através de uma experiência interativa bastante peculiar.
O que muitos provavelmente não sabem é que a SoftEdge, desenvolvedora de Cosmology of Kyoto, trabalhou em outro título com uma proposta semelhante. Seu nome é TRIPITAKA 玄奘三蔵求法の旅, um jogo lançado exclusivamente no Japão em 1999 que, apesar de sua ligação com o antecessor, permaneceu praticamente desconhecido durante décadas.
E a história de como este jogo foi recuperado é quase tão interessante quanto a obra em si.

Publicado pela PD Inc. para computadores Windows e Macintosh, TRIPITAKA é considerado o segundo título da série Cosmology of Asia, iniciada com Cosmology of Kyoto. Porém, apesar da ligação entre as duas produções, aqui temos uma proposta bastante diferente.
Enquanto Cosmology of Kyoto nos permitia explorar uma representação da antiga capital japonesa, encontrando demônios, espíritos e personagens do folclore local, TRIPITAKA é baseado na história de uma pessoa que realmente existiu: o monge budista chinês Xuanzang, conhecido no Japão como Genjō Sanzō.

Nascido em 602, Xuanzang ficou conhecido por sua peregrinação da China até a Índia durante o século VII, realizada com o objetivo de aprofundar seus conhecimentos sobre o budismo e obter textos religiosos que ainda não estavam disponíveis em seu país.
Sua jornada começou em 629 e terminou em 645, quando retornou à China trazendo centenas de textos budistas, além de outros objetos religiosos. Posteriormente, dedicou grande parte de sua vida à tradução desses materiais, contribuindo significativamente para a difusão dos ensinamentos budistas na Ásia Oriental.
Se a história parece familiar, não é por acaso. Xuanzang também serviu de inspiração para o personagem principal de Jornada ao Oeste, uma das obras mais conhecidas da literatura chinesa, que acompanha as aventuras de um monge e seus companheiros, incluindo o famoso Rei Macaco, Sun Wukong.
Entretanto, TRIPITAKA não é uma adaptação dessa narrativa fantástica. Sua proposta é apresentar uma versão histórica e educativa da peregrinação de Xuanzang. O próprio título japonês, 玄奘三蔵求法の旅, pode ser traduzido aproximadamente como A jornada de Xuanzang em busca dos ensinamentos budistas.

Diferente de Cosmology of Kyoto, que permite uma exploração relativamente livre, TRIPITAKA apresenta uma narrativa mais linear. Em primeira pessoa, o jogador utiliza o mouse para interagir com os cenários e acompanhar a peregrinação de Xuanzang, dando maior importância à história do que à exploração e à resolução de quebra-cabeças.
Visualmente, TRIPITAKA também apresenta diferenças interessantes em relação ao seu antecessor. Se Cosmology of Kyoto utilizava pinturas sombrias e cenários perturbadores para retratar o Japão medieval, aqui encontramos ilustrações com uma aparência mais leve, quase como as páginas de um livro ilustrado. Apesar dessa mudança, é possível reconhecer algumas características da identidade artística da SoftEdge, principalmente na maneira como os personagens e ambientes são apresentados.

O jogo também conta com vozes em japonês, acompanhando os acontecimentos da narrativa. Como não há registro de uma localização oficial para outros idiomas, o conhecimento da língua japonesa acaba sendo uma barreira importante para quem deseja compreender integralmente a história.
Além da aventura principal, o CD-ROM possui um modo complementar chamado Magazine Mode, que oferece materiais de consulta relacionados à peregrinação, incluindo mapas, cronologia e um dicionário dedicado a Xuanzang. Esse conteúdo demonstra a preocupação educativa da produção, já que a proposta não era apenas permitir que o jogador acompanhasse a viagem, mas também oferecer informações para que pudesse compreender melhor seu contexto histórico e religioso.

Mas talvez uma das características mais interessantes de TRIPITAKA esteja fora do próprio jogo. Sua produção contou com a participação de pesquisadores e artistas japoneses, incluindo o filósofo Yasuo Yuasa, responsável pela obra original e supervisão do projeto.
Em 1991, Yuasa publicou o livro 玄奘三蔵 はるかなる求法の旅 (Xuanzang: uma longa jornada em busca dos ensinamentos budistas), que examina a peregrinação histórica do monge, com atenção especial às questões filosóficas e religiosas que motivaram sua viagem.
Outro nome importante é Kōichi Mori, responsável pela composição e direção de TRIPITAKA. Mori também participou da produção de Cosmology of Kyoto, assim como outros profissionais presentes nos créditos das duas obras. A direção artística ficou sob responsabilidade de Yoshio Kiso, enquanto Hiroshi Ōnishi trabalhou na edição do dicionário de Xuanzang incluído no software.
Curiosamente, a existência de TRIPITAKA já era documentada alguns anos antes de seu lançamento comercial. Em 1996, Kōichi Mori publicou um trabalho intitulado Tripitaka 玄奘三蔵求法の旅 [造形作品] na revista acadêmica 鳰, da Universidade de Arte e Design Seian.
Embora o conteúdo integral desse trabalho ainda não esteja disponível publicamente, seu registro bibliográfico confirma que o projeto já era documentado em meados dos anos 90. Mais tarde, o currículo acadêmico do próprio Mori registraria TRIPITAKA como uma obra em CD-ROM datada de maio de 1999.
Essas informações também ajudam a esclarecer uma confusão sobre a data de lançamento, já que algumas fontes associam o jogo ao ano de 1995. Embora seja possível que seu desenvolvimento tenha começado anteriormente, os registros disponíveis apontam para 1999 como o ano de lançamento da versão comercial.
Apesar de todo esse histórico, TRIPITAKA praticamente desapareceu dos registros acessíveis ao público durante muitos anos. Sua existência não era completamente desconhecida, já que o título aparecia em documentos acadêmicos, currículos de profissionais envolvidos e outras referências japonesas. O grande problema era encontrar uma cópia física que permitisse conhecer o funcionamento do software.
Não existem números confiáveis sobre sua tiragem ou quantidade de unidades vendidas e, por muito tempo, também não havia uma imagem do CD-ROM disponível para consulta e preservação.
Isso começou a mudar em junho de 2023, quando uma cópia física apareceu em um leilão japonês no Yahoo! Auctions. O anúncio descrevia um exemplar de TRIPITAKA para Windows e Macintosh em estado próximo ao de um produto não utilizado, embora o próprio vendedor informasse que não havia testado seu funcionamento.
O leilão terminou no dia 14 de junho de 2023, após 24 lances, com o valor registrado de 41.100 ienes. Apesar da descoberta, o jogo continuava inacessível para a maioria das pessoas, já que encontrar um exemplar físico não significava necessariamente que seu conteúdo seria disponibilizado publicamente.

Foi então que o pesquisador de videogames Bruno de Figueiredo, que já investigava a existência de TRIPITAKA, conseguiu entrar em contato com o proprietário. Inicialmente, foram compartilhadas gravações que permitiram conhecer melhor a obra, mas ainda não havia uma imagem do disco disponível para preservação.
Após novas conversas, o proprietário concordou em permitir que o conteúdo do CD-ROM fosse disponibilizado e, finalmente, em 22 de maio de 2025, uma imagem do disco foi publicada no Internet Archive.
Pela primeira vez em muitos anos, pesquisadores e entusiastas passaram a ter acesso ao software, podendo estudar uma produção que havia permanecido praticamente inacessível por mais de duas décadas.
O material preservado inclui uma imagem de CD-ROM compatível com Macintosh e Windows, além de fotografias de sua embalagem original, que trazia um preço sugerido de 5.800 ienes antes dos impostos.

É importante observar que isso não significa que exista apenas uma cópia física de TRIPITAKA no mundo. Sua tiragem e a quantidade de exemplares sobreviventes permanecem desconhecidas. O que torna essa história tão interessante não é necessariamente a existência de um único exemplar, mas o fato de que uma obra comercialmente lançada pôde permanecer tanto tempo sem uma cópia acessível para pesquisa.
Hoje, os arquivos e imagens preservados podem ser consultados no Internet Archive — TRIPITAKA 玄奘三蔵求法の旅.
Quando escrevi sobre Cosmology of Kyoto em 2018, destaquei como os videogames poderiam ser utilizados para apresentar histórias, culturas e experiências que dificilmente conheceríamos de outra maneira. TRIPITAKA segue essa mesma proposta, embora utilizando uma estrutura bastante diferente.
Estamos falando de uma produção que não parece ter sido desenvolvida com a intenção de competir com os grandes lançamentos comerciais de sua época. Seu foco estava em utilizar o computador como ferramenta para apresentar uma jornada histórica, combinando ilustrações, narração, interação e material educativo.
Esse tipo de experiência também faz parte da história dos videogames, mesmo que muitas vezes fique de fora das conversas sobre os jogos e consoles mais conhecidos. E talvez seja justamente isso que torne sua preservação tão importante.
Não se trata apenas de recuperar um jogo raro para que ele possa ser executado novamente, mas também de preservar o trabalho de artistas, pesquisadores e desenvolvedores que enxergavam possibilidades diferentes para uma mídia que ainda estava descobrindo sua própria identidade.
Quase trinta anos depois dos primeiros registros acadêmicos da produção, TRIPITAKA finalmente pode ser conhecido por pessoas que sequer sabiam de sua existência. E isso, por si só, já é motivo suficiente para que ele não volte a ser esquecido.
E você, já conhecia TRIPITAKA? Já teve a oportunidade de jogar Cosmology of Kyoto?
